
Aconteceu na quarta. Me chamaram pra ajudar numa tal eleiçao pro Senado da universidade. Sim, a Universidad de Chile tem um Senado...tanto de professores quanto de alunos. O coordenador me pediu pra ser a presidente da mesa e eu, sem graça de dizer
nao, disse que
sim.
Cheguei no bom humor de sempre. Achei bom que nao ia ficar lá a toa, sozinha. Tinham mais dois alunos do primeiro ano. Pensei que seria uma boa oportunidade para conhece-los melhor, bater-papo, falar de futebol. E antes de começar os trabalho, fui votar - já que eu tinha que votar. Como nao conhecia nenhum dos candidatos, perguntei pra menina quem era quem, e ela me explicou. Vendo a lista enorme, resolvi encurtar, e fazer uma piadinha pra quebrar o gelo. Disse,
"me fala só os candidatos da direita, porque nao vou votar em ninguém de esquerda". Boom! Foi como passar em cima de uma bomba terrestre.
Pra encurtar um pouco, deixa eu dizer que aqueles dois, tanto Menina quanto Menino, dentre os quais tive que ficar sentada, sao dois esquerdistas.
A priori isso nao importa. Esquerda, direita...preto, branco...gay, hétero...e daí? E daí que eu aproveitei o nojinho deles comigo pra me divertir. Passei todo o tempo provocando os comunistas tontos.
Em geral evito esse tipo de briguinha, porque sei leva a lugar nenhum. Eu acho que o Estado deveria ser reduzido e limitar-se a certas atividades. Eu nao gosto de pagar impostot, principalmente quando eles nao voltam pra mim - nem pra ninguém. Eles acham que o Estado deveria ser o pai da naçao e, para que isso seja possivel, todos tem que pagar impostos...e felizes por isso! Eu disse que lugar de polícia é na rua, protegendo os cidadaos. Eles disseram que nao. Que os policiais sao todos trouxas mau educados. Eu disse que ninguém tem incentivo de ir pra rua com a família caso "a rua" nao seja segura. Eles revidaram argumentando que os delinquentes só tomam os espaços públicos quando as pessoas nao-delinquentes nao estao. Ou seja, uma vez que nós, nao-delinquentes, sairmos e ocuparmos os espaços públicos, "a rua" será mais segura. Ainda acrescentaram que em Bogotá conseguiram reduzir a violencia assim - claro, faltaram detalhes de extamente como conseguiram. Eu perguntei se algum deles já tinha ouvido falar no nome
Rudolph Giuliani e na política de
Tolerancia Zero, que mudou a cara da criminalidade de Nova York - ao reduzir drasticamente os números. Nao, eles nao tinham idéia de quem era o Sr. Giuliani.
A coisa nao parou por ae. Logo entramos no assunto dos déficits fiscais da Europa - o Menino é italiano, coitado - Israel, Palestina e o bloqueio à Faixa de Gaza e claro, nao podia faltar, meu estudo de caso da minha dissertaçao, a nacionalizaçao (expropriaçao) de empresas privadas. Eles, comos se esperava, sao a favor. Eu, como também se esperava, sou veementemente contra.
A discussao foi divertida. Se decido a entrar no bate-boca, com certeza me divirto. Adoro quando me desafiam a pensar, articular idéias. E confesso que ontem entrei nessa onda para me divertir e nada mais. Uma vez cumprido nosso dever de estar ali e receber os votos, Menino e Menina, para mim, voltariam a ser a mesma pessoa. Eu os trataria tao bem quanto antes. Claro que teria já aquela idéia na cabeça de,
"essa gente é de esquerda", mas nada mais do que isso. No entanto.... a recíproca nao é verdadeira. Menina e Menina se envolveram emocionalmente na discussao. Ficaram vermelhos, levantaram vozes, viraram os olhos naquele gesto de quem quer dizer,
"burra, idiota!". Era visível seu desconforto e, ao final de tudo, tinham plena convicçao de que eu era a filha de Satan. Hahaha! Quem me dera ser gostosona igual a Elizabeth Hurley (essa ae da foto).
Fiquei com isso na cabeça. Percepçoes sao coisas difíceis de mudar. Pensa...essa gente agora vai me encontrar no corredor do IEI e a primeira coisa que vao pensar vai ser,
"ih, lá vem o satanás...quer dizer, a filha!". Vao evitar de olhar, que dirá conversar. Como eu sei? Porque hoje começou....
Eu me importo? Nao muito. Só acho triste esse tipo de atitude. Prova que essas pessoas que tem uma verdade muito verdadeira sao as mais difíceis de lidar, as mais ignorantes no fim das contas. Ignorantes das outras idéias, das outras possibilidades. E com isso nao quero dizer que eu estou certa. Eu entrei no bate-boca pra me divertir, mas é claro que estava disposta a ouvir bons argumentos e fatos. Estes sao independentes de posicionamento político. Eu os escutei, considerei e ponderei as idéias apresentadas. Eles nao devolveram com o mesmo comportamento.
Tá, chega... ficou um post meio reclamao, apesar de que era pra ter sido engraçado. Continuo com dó de Menino e Menina...tadinhos! Superioridade? Nao... dó de gente que nao sabe ouvir, só isso.