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quarta-feira, 2 de março de 2011

Entre-os-Lugares

Amo observar as montanhas no fim do dia. Deitada em minha cama volto meus olhos para a janela e ae está o Cerro Plomo com seus quase 5 mil metros de altura. Nao importa a época do ano, tem sempre neve lá em cima. Muita ou pouca, está sempre lá. As cores desse sol de verao, num fim de tarde normal e corrente, fazem com que a vista do Plomo seja quase mística...nao importa quantas vezes eu olhe. E nessa tarde que de repente se tornou melancólica, eu jogo minha mirada, mais uma vez, a esta cena... e respiro fundo.

Uma semana de férias, uma semana de Brasil. Uma semana de entre-lugares, que é aquele nome complicado pra dizer que voce já nao se sente bem em lugar nenhum. Que sempre falta alguma coisa. Faltam os amigos, falta a família, falta aquela comida. E se estes nao faltam, o que falta é a organizaçao, as ruas largas, as montanhas e a "normalidade" que agora é sinonimo da capital de um país. Nunca está completo. Sempre falta. 

Nessa semana de Brasil li uma frase fantástica. Pena que esqueci o autor. Era algo mais ou menos assim: "Na vida existem dois horizontes: o da saudade, das coisas que já foram; e o da esperança, das coisas que ainda estao por vir". O conteúdo da frase expressa esse entre-lugares vivido por cada imigrante e, de alguma forma, por cada ser humano também. Estamos sempre entre um e outro. E sempre falta. Um pouquinho de breguice e eu poderia completar o parágrafo dizendo que essa "falta" é "plano de Deus" e por isso necessitamos das pessoas e zzzzzzzzzzzzzz.... mas nao estou para breguices nem pensamentos fáceis hoje.

O sol vai deixando a cidade...e as cores da montanha mudam. De rosa intenso a rosa claro...a um acinzentado. A melancolia aumenta. O espaço que nao será mais nunca preenchido também. E já que estamos em lugar nenhum, já que estamos entre um ou outro, o jeito é inventar maneiras de achar que a coisa nao é bem assim. Que venham as horas extras do trabalho, que venham as aulas com o personal trainer, que venham mais responsabilidades, que venham os filmes ganhadores e perdedores do Oscar, que venham as reprises de Friends... 

Amanha as 8.30am começa outra jornada....

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

De Novo...

Correria de última hora pra comprar presentes (porque eu sou brasileira e nao nego!), bagunça de roupas e coisas pelo quarto, mala aberta, telefone tocando, decisoes sobre o que levar e o que deixar. Esse filme eu já vi. E nao foram poucas vezes.

Me lembro bem do dia em que mudei de volta para o Brasil, depois de ter morado no Canadá por mais ou menos um ano. Logo pela manha meu pai me ligou, com a voz toda animada. Eu, nada feliz, disparei a chorar. Daddy tentou oferecer consolo e nunca esqueci de suas palavras: "Minha filha....voce escolheu essa vida de cigana. Entao tem que aguentar. Cigano muda. Um dia tá aqui, noutro tá lá. E agora tá na hora de voce voltar pra casa".

Ir embora é sempre doído. Dói mesmo, assim, por dentro. E nao adianta quantas vezes voce vive isso, é sempre a mesma coisa. Claro que a gente pega o jeito, e pelo menos já sabe o que esperar, mas a dissonancia cognitiva razao vs. emoçao nao deixa nunca de ser real. Por mais prática que eu tenha, nao é mais fácil deixar os amigos tao querida, e a família que eu tanto amo. A sensaçao é sempre de que nao deu tempo o suficiente de estar com quem se gosta.

Poucos dias atrás saí com Dona Let. Conversamos muito sobre o lance de amizade e relacionamentos virtuais. Lembro de sair desse encontro - um almoço, na verdade - me sentindo privilegiada de viver em tempos onde internet é algo barato e comum. Sem esta, tudo seria mais difícil. Sem internet eu ficaria sem notícias dos amigos, e gradualmente perderia contato com eles. Orkut e Facebook vieram pra facilitar muito a vida nesse sentido. Assim como o Skype, que me permite falar com Mom and Dad todos os dias. A saudade aperta sim, e sempre vai apertar, nao adianta. Mas nao consigo deixar de me sentir grata pela tecnologia que me permite enganar um pouco esse sentimento.

O duro de morar fora, nem que seja uma vez na vida, é que o coraçao da gente nunca mais fica em um lugar só. A saudade passa a ser constante.

No entanto, dores sentimentais à parte, me sinto feliz também. Voltando pra casa=Santiago, as coisas voltam também ao normal. Voltarei a comer coisas mais saudáveis, a subir morros, ler coisas para minha dissertaçao (artigos academicos). Voltarei a trabalhar e ter responsabilidades. Ter menos mordomia me faz bem, devo admitir. Volto a conviver com meus amigos de lá, os chilenos, os americanos, os bolivianos, etc. Volto também para aquela criatura que tanta paciencia teve comigo e disse que amanha me espera quando eu chegar. Saudade...vontade de ver... Esses quase dois meses de Brasil foram um teste. Teste esse que falarei mais no futuro.

E é isso...o sono bateu. Melhor ir dormir logo e aproveitar minha última noite naquela que já foi minha cama de todos os dias, espaçosa e confortável, no meu quarto massa e com ar condicionado que eu adoro!

Encerro o post com a seguinte sitaçao de Paulo Leminski: "Haja Hoje para tanto Ontem."

domingo, 22 de novembro de 2009

I Did It My Way

Depois de um fim de semana bem divertido chego de volta em casa. A missao é estudar, pois amanha tem prova final da matéria que eu menos gosto. Antes de armar a parafernália de textos e anotaçoes, abro o computador, vejo emails e chamo a família no Skype.


De vez em quando a vida atropela a gente. É normal, é cíclico. Em geral esses atropelamentos tem a ver com perdas. É uma relaçao que termina, um animal que morre...ou uma pessoa querida que se vai. Neste fim de tarde, ao falar com meu pai, ele me deu a notícia que eu já meio esperava. Disse simplesmente, "Ylana, seu avo já apresenta sinais de morte cerebral. Agora é questao de tempo".

Este avo, pai do meu pai, era o "seu"Adao, o avo com quem fui criada. Nao que eu nao amasse o "seu" Bruck, mas a diferença era óbvia. Enquanto eu via o "seu" Adao quase todos os dias, o "seu" Bruck (falecido há exatos 71 dias), eu via uma vez por ano e olha lá. E pra completar passei a vida ouvindo de toda a família o quanto eu era parecida com "seu" Adao. Minha mae nao cansava de dizer que eu era impaciente, respondona, ansiosa e ranzinza como ele. Também apontavam as covinhas que eram iguais, a brancura da pele, o gosto por viajar e a disposiçao por viver. Essas sao apenas algumas das características que eu dividia com ele.

Acho que eu deveria ter uns 12 ou 13 anos quando, ao me ensinar ingles, ele me disse: "Nao vai demorar nada pra voce falar muito melhor do que eu". Eu nao acreditei, mas segui estudando com o mesmo interesse até o dia que me dei conta que de fato eu já falava melhor do que ele. Mas meu vo era esperto. Me ensinou minhas primeiras palavras em italiano, espanhol e frances. Brigava sempre que minha avó lhe oferecia pao de ontem e falava, "de velho basta eu". Ele também sabia das minhas aprontaçoes pela vida. Reforçava sempre que eu deveria mesmo aproveitar, mas desde que andasse com gente igual ou melhor. Nao me criticou quando coloquei piercing e nao falou nada enquanto minha avó me dava bronca a respeito de uma pessoa com quem namorei. Ele ficava na dele, jogando palavra cruzada o dia inteiro. Ultimamente até fez conta de Skype e sempre me ligava. Inclusive essa é a última vez que o vi. Assim, pela webcam. Ele e minha avó, no sofá. Conversamos sobre quando eles viriam pra cá me visitar.

Em uma certa ocasiao fui com ele e minha avó num velório. Ele virou para a moça, filha do falecido e com a maior falta de noçao do mundo disse: "Isso é normal, querida. Os próximos somos nós". "Seu" Adao era assim mesmo. Sincero demais. Chegava a ser inconveniente. Nunca teve paciencia para o sofrimento alheio e tenho certeza de que se ele me visse chorando agora iria brigar.

O complicado de perdas desse tipo nao é para quem se vai, e sim para quem fica. Nao existe coisa mais incomoda do que ter que lidar com sofrimento dos outros quando voce já está sofrendo. Está decidido que nao vou pra casa, para enterro nem funeral. Nao vejo sentido. Mas a família está carente. E agora, o que faço? Cancelo os planos que tinha para o ano novo, peço que me substituam no trabalho e vazo para Goiania? Certeza que ele seria contra isso, haha.... se bem que lembro de quando eu morava em Montreal e ele pagou minha passagem para que eu pudesse passar o Natal e Ano Novo em casa. Muito cliché dizer isso, mas sao tantas lembranças...

Ontem, durante a festa do casamento que fui, tocaram MY WAY, do Frank Sinatra e isso me fez lembrar de "seu" Adao. Ele quem me ensinou a gostar dessas músicas "de velho". Adorava Ray Coniff e Frank Sinatra. Essa música, My Way, é a cara dele e foi super propícia para o momento. E assim termino o post, com as letras da cançao que, imagino eu, descrevem mais ou menos bem o senhor Adao Rodrigues.

I've lived a life that's full -
I've travelled each and every highway.
And more, much more than this,
I did it my way.



* A foto, que nao é a melhor, tiramos neste último Reveillon, que passamos juntos lá em Goiania. Ele, eu e Dona Ana (vovó).

domingo, 29 de março de 2009

Momento Saudade


Em casa, tentando sarar da gripinha que me pegou ontem depois do churrasco, e concentrando poderes de concentracao pra dar uma última estudada pra prova de amanha, bateu uma saudade do meu gato. =( ...ai, eu queria o Bafao! Bem melhor espirrar por causa de alergia do que por causa de gripe.

Olha ae a foto do meu lindo, fofo, gordo e peludo!...

Bateu também vontade de ouvir Sarah McLachlan. Algumas dos "velhos tempos", como Building a Mistery e Good Enough, que eu sempre gostei, e outras novas, como Silence, remixada pelo DJ Tiesto. Recomendo, total!

É isso... volto para meu esconderijo de escritora wannabe. Uh!...hora de morfar!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Pequeno Devaneio sobre Ética

Tive uma aula de Ética na faculdade. Lembro algumas coisas dessa matéria...

1. Passei mal nessa aula uma vez. Tive uma convulsao e a coisa virou show. Me carregaram pra fora da sala. A professora apavorou, queria chamar ambulancia, declarou a aula terminada, essas coisas...

2. Nao lembro do conteúdo da matéria. Mas lembro que falamos de Kant e sua "Paz Perpétua". Só fui, de fato, entender este conceito, ano passado quando estava dando uma revisada em Teoria das RI. Lembro inclusive de um telefonema muito desagradável logo depois que entendi a porcaria do conceito. Coisas que ficam na mente...

3. Nesta aula fiz um trabalho sobre uma das obras de John Rawls. Foi a primeira vez que citei eu mesma num trabalho. Hahaha...todos riram, e a professora achou uma boa idéia até.

Tá...entao é isso que eu lembro de Ética nas Relacoes Internacionais. Ai, que vergonha... deveria ter aproveitado melhor. A professora era muito dedicada. Se eu nao tivesse tao ocupada pensando em festas, namorado, Canadá e sei lá mais o que, talvez eu teria tido mais tempo pra prestar atencao. Será que posso usar a hiperatividade como desculpa? =/ ...Só sei que hoje o assunto me chamou atencao de novo. Nao a ética de nenhum campo específico da vida, mas sim como um conceito.

Sem usar nenhuma ferramenta online, nem academica, me dou ao trabalho de pensar sobre o conceito de Ética por um segundo. Quando dizemos, por exemplo, que alguma pessoa tem uma conduta ética, o que queremos dizer é que a pessoa age corretamente. Ou seja, dentro dos parametros existentes que dizem o que é certo e o que é errado. Alguém ético é, certamente, quem, mesmo diante de uma situacao conflituosa, escolhe fazer "a coisa certa".

Vamos usar um exemplo. Há pouco tempo atrás uma pessoa ficou atraída por mim. Mandou email, queria telefonar e sair. A pessoa era/é muito atraente, nao se pode negar, além de demonstrar um tipo de personalidade inteligente que me fez querer passar horas em sua companhia. Perfeito, nao? Quase!... O único problema com esta criatura era que... uma outra amiga e esta pessoa tiveram envolvidos no passado. E de certa forma no presente também, de maneira bem casual, mas mesmo assim... Respirei fundo, mas muito fundo mesmo, e deixei passar. Nao dava. Além de nao querer espalhar karma ruim por aí (porque tudo volta, e pior do que quando foi!), achei que nao seria uma atitude ética. Mesmo sabendo que L, minha amiga, nem se se importava muito com o outro L, ficante. (Acabo de perceber o tanto de L que existe na minha vida!)... Enfim, em nome da minha ética pessoal - e do medo do karma ruim - perdi o que seria, possivelmente, uma excelente ficada.

Tá, essa foi fácil! E se o assunto fosse terrorismo? Até aonde certas técnicas de interrogacao deveriam ser usadas? Por exemplo, seria ético submeter um priosioneiro a horas e mais horas a uma combinacao de privacao de sono + música excessivamente alta porque ele é primo de um suspeito? Apenas um exemplo fictício... nao to nem falando em nada mais material como leis anti tortura e afins.

Pow, viajei hein!... foi mal, mas o assunto ficou encrustrado na minha cabeca desde a aula de Direito Internacional I de ontem. Fiquei pensando sobre Guerra....direito de Guerra e assuntos relacionados. Toda guerra envolve - ou deveria envolver - uma discussao sobre ética. Nao, nao sou tree hugger, que saí por aí pregando a Paz e Prosperidade Universal, mas...sei lá... perae, por que eu to me justificando? LOL... (LAUGH OUT LOUD)...

Pra terminar, lembrei dum trem aki. Quando eu tava na 4a. série primária (10 aninhos), comecei a pegar no pé da professora (coitada!) e tudo o que ela fala e eu nao concordava - e isso era quase tudo o que ela falava - eu dizia na hora: "Nao! Isso é contra a ética!". Provavelmente eu tinha ouvido a expressao "contra a ética" em algum programa de televisao e achei legal repetir. Minha atitude capetinha acabou me rendendo uma visita aos corredores da escola (pra fora, Ylana!), e uma conversinha com a Diretora da escola, acontecimentos que no decorrer daquele ano se tornaria um hábito quase diário. Como eu queria encontrar minha a professora Rejane (era o nome dela) no Orkut e falar um "foi mal" pra ela. Enfim... o tempo faz o que tem que fazer. Espero que ela nem lembre meu nome mais! hahaha...

BjuMiLiga!

sábado, 22 de dezembro de 2007

Pas au côte-des-neiges....





Como eu disse anteriormente, a saudade de Montreal tá batendo esses dias. Uma das coisas que eu mais sinto falta é a neve. Nao, eu nao queria morar no Pólo Norte e ter que conviver com neve o ano todo. Mas a idéia de ficar soterrada abaixo de neve pelo menos uns 4 ou 5 meses por ano me agrada. Loucura, eu sei.... eu costumo dizer que o dia em que eu passar a xingar a neve e dizer que odeio aquela porcaria aí sim terei me tornado uma canadense, hehe....mas até entao sou apenas uma brasileira com saudade da neve.


Gosto do calor também. Adoro acordar e ver o sol rachando lá fora, e pensar que a água da piscina está quentinha e que posso dar um mergulho refrescante. Mas a neve é algo mágico.


Acho que consegui colocar muito bem uma vez que expliquei pro meu pai que neve é igual barro. A diferença é a textura e a cor....e o fato de que você pode brincar com ela sem aprontar a lambança que o barro provoca. Neve é tudo de bom! É lindinha, é gelada....deixa as calçadas insuportáveis e difíceis de andar, o que é excelente pois, se você contar o peso extra do casaco e das botas, é um exercício a mais que você faz, hehe!... E claro que isso justifica repetidas idas à cafés e muitos dólares gastos em chocolates-quente, chás, cookies e afins....

Bem, nao pretendo fazer aqui um Tratado Sobre a Neve....somente expressar minha saudade de viver na neve. Seja aonde for.... e agradecer o sol que brilha hoje por aqui.






* Laura e sua eterna "cara de salada"


* Pensando na vida enquanto passeava pela McGill - Burnside Building.



* Jeff e eu a -15, no topo do Mont-Royal.
 
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